#2 Por favor, acabem com as bilheteiras em inox
O flagelo das remodelações e demolições de estádios, a revisitação de campos da bola, a emissão do A Bola é Nossa dedicada ao Futebol de Tostões e o melhor da "criatividade espontânea humana"
Num mundo perfeito não existiriam bilheteiras em inox, nem se pintariam de branco as fachadas coloridas dos campos de futebol antigos.
Se há coisa que tenho vindo a lamentar ao longo deste percurso no Futebol de Tostões é que a remodelação dos campos da bola vem muitas vezes acompanhada pelo apagar daquilo que eram os seus traços identitários e, consequemente, por uma completa descaracterização dos campos. Pior só quando temos de assistir a uma demolição total e à substituição do antigo campo por mais um complexo desportivo igual a tantos outros.
Percebi o que me podia esperar logo no início do Futebol de Tostões. Estávamos em 2017 quando passei por Gandra, em Paredes, para fotografar o antigo campo do Aliança Futebol Clube de Gandra. Com a construção do novo complexo desportivo, a três quilómetros de distância, era previsível que o campo antigo acabasse por não ser preservado. Assim foi e, em vez de um campo de futebol, foi isto que encontrei:


Claro que a melhoria das infra-estruturas de jogo favorece todos os envolvidos, sejam atletas, equipas técnicas, árbitros ou mesmo os adeptos, que muitas vezes passam a encontrar instalações com todas as condições para assistirem aos jogos. Mas também é verdade que os trabalhos de renovação de muitos estádios nem sempre preservam (diria mesmo raramente preservam) aquilo que os distingue.
Se há coisa que fez com que o Tostões ganhasse forma foi precisamente o facto de ter constatado esse carácter distintivo nos primeiros campos com que me cruzei. Outros tantos se seguiram ao longo destes anos, mas acabo por sentir que o tempo urge e que tenho de picar rapidamente todos os campos que quero visitar antes que mais uma obra deite por terra aquela bilheteira tão singular, o banco de suplentes com a pintura a descascar, o balcão tosco do bar ou a bancada com as cadeiras descoloradas pelo sol, pormenores que fazem com que cada campo seja único e que me fazem vibrar sempre que vejo um portão aberto e tenho oportunidade de entrar e fotografar tudo isto. A mim e provavelmente a quem lá vai assistir aos jogos também pelo facto de serem assim. O fino e o prato de tremoços sabem melhor quando são servidos num balcão empenado de madeira ladeado por galhardetes e cachecóis, a dois passos da bilheteira que é só um mini anexo pintado com as cores do clube, mesmo ao lado da sinalética improvisada a indicar o caminho para os balneários.
Tudo isto é também parte de um património arquitectónico que devíamos preservar e que vai muito para além da sua importância na história do futebol em Portugal. Muitos destes campos são um prolongamento das comunidades onde se inserem, sobretudo em localidades mais pequenas, onde o clube da terra tem uma importância incomensurável e onde o campo da bola é apenas mais um dos pontos fulcrais de um imenso fio identitário que une os seus habitantes. Como se diz tantas vezes, “não é só futebol” e esta questão claramente extravasa os limites do desporto propriamente dito.
Sei que é utópico, mas era perfeito que começássemos a pensar na importância de preservar este património e deixássemos de trocar fachadas e bilheteiras que são autênticas obras de arte por mais uma parede branca e um rectângulo em inox. Já nem peço para deixarmos de abandonar ou demolir estádios que fazem parte da memória colectiva e que deviam ter sido preservados, como o Mário Duarte ou o Vidal Pinheiro. Não peço, mas gostava muito que outros tantos não desapareçam e espero não estar sozinha neste desejo.
Estádios do Tostões
Há uns dias voltei ao Campo dos Estrelas, a casa do Estrelas Futebol Clube de Fânzeres, em Gondomar, que tinha fotografado para o Tostões em 2018:

Um trabalho de revisitação que agora começa e que me fará regressar a alguns campos da bola que fotografei durante estes anos e que tenho muita curiosidade em saber como se encontram. Corro o risco de ter algumas desilusões pelo caminho e encontrar, lá está, algum inox onde antes este não existia, mas acredito que vai valer a pena. Pelo menos comecei bem com este, que se mantém quase intacto (ou seja, belo):






O Campo dos Estrelas foi inaugurado em 1957, no mesmo ano em que o Estrelas de Fânzeres foi fundado. O clube tem vários escalões, sendo que a equipa principal milita actualmente na Divisão de Honra da Associação de Futebol do Porto.
A Bola é Nossa
Na sequência do lançamento desta newsletter, o jornalista Ivo Costa desafiou-me a voltar ao programa A Bola é Nossa, da Rádio Nova, depois de uma primeira emissão dedicada ao Futebol de Tostões em 2018. Durante a emissão, que foi para o ar no dia 5 de Setembro, falámos não só sobre o Tostões, mas também sobre a atenção crescente que tem vindo a ser dada a clubes mais pequenos e sobre o regresso de tantos adeptos ao lado mais genuíno do futebol.
Podem ouvir a emissão no podcast do A Bola é Nossa ou ler a versão escrita no site do Futebol de Tostões.
Vale (muito) a pena seguir
Arquivo do Design Não-Alinhado
Depois daquela reflexão ali em cima sobre a importância de mantermos as bilheteiras antigas, as fachadas coloridas e a sinaléctica improvisada, tenho inevitavelmente de falar de um projecto que adoro e que se apresenta como um “arquivo de objectos de comunicação concebidos pela criatividade espontânea humana”.
O Arquivo do Design Não-Alinhado foi criado em 2016 pelo Samuel Rego e é uma das minhas melhores descobertas do ano nesta coisa das redes sociais. São quase 800 publicações e 8 anos de imagens, da autoria do Samuel ou de seguidores da página, que vale a pena percorrer de uma ponta à outra.
Se tiveres imagens que queiras ver partilhadas por lá, só tens de contactar o Samuel via email ou através do Instagram, em @arquivo.dna.


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Obrigada por estares desse lado e por apoiares este projecto.
Até breve,
Marta.





